23 de março de 2017
Água | Dessalinização já é economicamente viável

Por Juan Garrido | De Valor

Os efeitos danosos da brutal escassez de água dos anos 2014 e 2015 no Sudeste foram dominados na Grande São Paulo por meio de ações emergenciais de engenharia e gestão, uso pioneiro das reservas técnicas do sistema (erroneamente chamadas de volume morto) e o firme apoio da população dos 36 municípios metropolitanos. O novo desafio é garantir segurança hídrica na região por meio de grandes obras estruturantes, visando o horizonte de 2050.

“Mas e quanto ao futuro mais distante, quando um gole de água limpa possa se tornar às vezes um luxo?”, pergunta Claudia Mota, gerente de tratamento de água da Sabesp.

Para Claudia, a ideia de que possa faltar água potável no planeta faz a população estremecer. “Existem regiões ameaçadas, casos das ilhas de Chipre e de Páscoa, onde os lençóis freáticos diminuíram em razão da exploração exagerada, mas em alguns países que não possuem muitas reservas de água, como a Arábia Saudita, Israel e Kuwait, o problema é real há tempos. “Em Chipre, a água do mar é utilizada como matéria-prima para abastecer a população e também serve para recuperar os lençóis subterrâneos de água doce.”

Vista do alto a Terra é azul por causa da água, mas de toda a massa hídrica do planeta, apenas 2,5% é doce. Só que 70% dessa pequena percentagem está em geleiras e 29% em aquíferos subterrâneos. Para o ser humano beber, fazer sua higiene e lavar coisas — assim como para irrigar as lavouras —, não sobra mais que 1% dessa água.

Segundo a especialista da Sabesp, uma das alternativas para as regiões que sofrem com a escassez de água doce é tratar a água salobra e a água do mar. Para torná-las potáveis, ou seja, apropriadas ao consumo humano, é necessário fazer a dessalinização. “A água salobra também apresenta alta concentração de sais e é muito comum nos aquíferos subterrâneos do Nordeste”, diz, acrescentando que no Oriente Médio há grandes exemplos de águas salobras, como o Mar Morto e o Mar Cáspio.

Ela comenta que o processo de dessalinização já foi bem mais caro do que o observado hoje. “Mas à medida que foram sendo desenvolvidas novas tecnologias que permitiram massificação dessa água tratada, os preços foram caindo, chegando hoje em algumas regiões a US$ 1 por metro cúbico, bastante competitivo”, diz.

Em todo o mundo são adotados quatro métodos diferentes para promover a conversão da água salgada em doce. Um deles, a osmose reversa, ocorre quando se exerce forte pressão em uma solução salina e a água atravessa uma membrana semipermeável, dotada de poros microscópicos, responsáveis por reter os sais, os microorganismos e outras impurezas.

Outro processo é a destilação multiestágios, pelo qual se utiliza vapor em alta temperatura para fazer com que a água do mar entre em ebulição. O terceiro é a dessalinização térmica, um dos processos mais antigos, imitando a circulação natural da água. O modo mais simples, a “destilação solar”, é utilizada em lugares quentes, com a construção de grandes tanques cobertos com vidro ou outro material transparente.

Finalmente há o congelamento, processo que ainda exige estudos de viabilidade e novas tecnologias. Quando a água do mar ou salobra é congelada é produzido gelo puro, sem sal. Esse método não foi testado em larga escala. Porém, existem propostas para a exploração das calotas polares (onde está boa parte da água doce do planeta) para obtenção de água pura. Mas isso é muito caro e só seria utilizado como última opção.

No Brasil o mercado da dessalinização ainda é embrionário. Segundo Thiago Forteza, gerente de operações da General Water, existe um único caso de abastecimento público por meio de dessalinização: o da Compesa, companhia pernambucana de saneamento, que utiliza a técnica na ilha de Fernando de Noronha. “Não é porque o lençol freático tenha sido contaminado, mas porque a pequena ilha não tem mais estoque de água doce, devido principalmente ao crescimento de turismo na alta temporada.”

No entanto, há outro caso pioneiro de aproveitamento da água dessalinizada no Brasil. Uma companhia localizada em Bertioga, litoral de São Paulo — a Ocean Par —, desenvolveu um método para dessalinizar a água do mar, torná-la própria para consumo humano e comercializá-la em atrativas garrafinhas. O produto já foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O engenheiro Silvio Paixão, sócio da Ocean Par, conta que depois de um período de experiências com o público nos últimos anos, em que a empresa realizou uma produção praticamente artesanal em sua planta-laboratório, foi adotada uma “parada técnica”, uma vez que a água foi muito bem aceita e havia o receio de não haver capacidade de atender aos pedidos. “Partimos então para uma série de melhorias e inovações na forma da apresentação do produto e também focamos na busca de produtividade.”

Segundo Paixão, ao longo do quarto trimestre deste ano, a companhia voltará ao mercado apostando em sua competitividade. “Estamos nos mantendo totalmente resguardados porque é nosso entendimento que a demanda vai ser avassaladora”, diz, garantindo que pela tecnologia adotada é possível retirar o sal da água do mar e ainda manter 63 minerais que são importantes para os seres humanos.

Sobre novas tecnologias que estão sendo testadas para o futuro, Forteza, da General Water, conta que a mais interessante é a resina de troca iônica. “Tem gente que já usa, mas ainda é muito cara”, diz, acrescentando que por meio de eletricidade são removidos os íons da água. “Os íons positivos e negativos atraem as moléculas contaminantes da água e a separação é feita à base da força elétrica.”