30 de abril de 2019
Banco estrangeiro amplia oferta de financiamentos em reais

A perspectiva de mais investimentos no país tem levado bancos estrangeiros a se organizar para financiar empresas brasileiras em reais, algo que boa parte deles só fazia pontualmente.

O grande atrativo são os projetos de infraestrutura esperados para os próximos anos, mas setores como energia, saúde e educação também estão no radar.

Como essas atividades normalmente têm receita em reais, os clientes costumam buscar opções de financiamento que casem as moedas. Até agora, quase todo esse espaço era preenchido por bancos locais, BNDES e algumas operações no mercado de capitais doméstico.

 

No entanto, a estabilização da taxa Selic num patamar baixo tornou mais competitivas as operações na moeda brasileira – o que vem estimulando a procura das empresas, por um lado, e o maior interesse das instituições estrangeiras, por outro.

 

“O mercado como um todo está discutindo mais operações em reais. Há uma demanda mais forte por recursos em moeda local com a queda da taxa de juros”, afirma André Cury, corresponsável pela área de corporate banking do Citi. “E, agora, o spread em reais está menor que o spread em dólares.”

 

Para se posicionar, os bancos estão atuando de duas formas: na oferta de empréstimos e na estruturação de emissões de dívida no mercado doméstico, em que também oferecem garantias de colocação caso os papéis não sejam absorvidos pelo mercado.

O japonês Mizuho mapeou potenciais privatizações e investimentos em infraestrutura para oferecer garantias, empréstimos-ponte e até operações de prazo um pouco mais longo em privatizações, concessões e projetos de infraestrutura. “Essas vão ser as grandes alavancas do mercado, com o BNDES recuando”, afirma o chefe das áreas de banco de investimentos e de atacado do Mizuho, Claudio Pitchon.

 

Segundo o executivo, é natural que a maior parte das transações do banco continue sendo em dólar, mas os empréstimos em reais vêm ganhando importância. O Mizuho também vai criar uma estrutura de distribuição para atuar no mercado de renda fixa local. A instituição tem R$ 853 milhões em capital no país, depois de um aumento de quase R$ 35 milhões no ano passado. “Nossa carteira de crédito ainda é pequena”, diz Pitchon. “Uma capitalização para aumentar o balanço pode ser feita num segundo estágio, mas isso ainda está sendo refinado.”

 

O francês BNP Paribas fez uma aposta grande ao anunciar, neste ano, um aporte de R$ 1 bilhão na subsidiária brasileira. Com os recursos, terá mais balanço para disputar as operações. Para Ernesto Meyer, responsável pela área de empréstimos corporativos, o interesse em atuar na moeda brasileira existiria independentemente do aporte.

 

A liquidez internacional favorece a disponibilidade de recursos para o país, mas não quer dizer que a atuação dos estrangeiros não continue seletiva. Segundo Meyer, a disposição é maior para o segmento de grandes empresas, com Ebitda anual acima de R$ 300 milhões, porém os bancos olham sobretudo para a capacidade de pagamento dos clientes a partir da geração de caixa.

 

A demanda tem derrubado as taxas cobradas nas operações em reais. No início do ano passado, o BNP liderou uma emissão de debênture para um cliente do setor elétrico a 116% do CDI e prazo de cinco anos. Segundo Meyer, a taxa para a mesma empresa caiu a 110% do CDI neste ano. O banco não revelou o nome da companhia.

 

As modalidades mais comuns têm sido as cédulas de crédito bancárias (CCB) e as debêntures emitidas sob a instrução normativa 476, da Comissão de Valores Mobiliários, que prevê esforços restritos de colocação. Boa parte dos títulos emitidos é absorvida pelos balanços das instituições financeiras.

 

“Companhias que captavam lá fora agora também estão demandando aqui”, afirma Cury, do Citi. Como exemplo, aponta a Petrobras, tradicional emissora de bônus, que captou R$ 3,6 bilhões em debêntures em fevereiro.

 

Com R$ 4,1 bilhões em capital e presença centenária no Brasil, o banco americano já realizava operações em reais, mas tem visto a demanda crescer. Numa das transações, atuou na perna de curto prazo do financiamento de R$ 900 milhões feito pela operadora NotreDame Intermédica para adquirir a GreenLine no ano passado.

 

O Goldman Sachs tem usado o balanço principalmente para garantir emissões de renda fixa no mercado de capitais. Foi o caso dos R$ 3,4 bilhões em debêntures emitidas pela Centrais Elétricas de Sergipe (Celse) em 2018. “Nossa disposição não é nova, mas há um ano e meio não se viam tantos ‘players'”, afirma Rodolfo Soares, corresponsável pelo banco de investimentos do Goldman no país.

 

O banco americano também já tinha aprovação para financiar a aquisição da TAG, da Petrobras, mas o consórcio apoiado por ele – formado pelo Mubadala e pela EIG Global Energy Partners – foi derrotado na disputa pela Engie.

 

Soares afirma que o Goldman Sachs está aberto a fazer também empréstimos na moeda brasileira, dependendo da operação, e diz que a instituição não teria restrições de capital para isso.

 

As operações em reais, por enquanto, estão mais concentradas nos segmentos de transmissão e geração de energia e rodovias, mas a expectativa é que outros setores passem a demandar recursos, como portos, energia solar e empresas de educação.

 

“Temos uma expectativa grande e positiva à medida que novos setores demandem funding em moeda local”, diz Renato Ajimura, responsável pela área de multinacionais do MUFG. “A perspectiva é de maior uso do balanço local.”

 

O banco japonês ampliou a equipe e passou a fazer novos produtos. Além de empréstimos na moeda brasileira, o MUFG tem feito operações com dólar e swap para reais – o que foi possível por meio de um reforço na tesouraria. Em paralelo, tem atuado em operações no mercado de capitais. Em janeiro, coordenou a emissão de R$ 250 milhões em debêntures da EDP Transmissão SP-MG.

Fonte: Por Talita Moreira e Flávia Furlan | De São Paulo

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