21 de dezembro de 2017
Energia é principal alvo de investimento da China no RS

Estatal chinesa já domina dois terços do território gaúcho na área de distribuição e outros negócios estão na mira

 

Caio Cigana

 

A cobiça pela aquisição de companhias gaúchas por enquanto parece ser moderada, mas já se percebem sinais do avanço de empresas chinesas no Rio Grande do Sul. Predomina o setor de energia. Com a aquisição do grupo CPFL, dono das distribuidoras RGE e RGE Sul, a State Grid domina dois terços do território gaúcho na área de distribuição. Passou ainda a ser majoritária em quatro hidrelétricas no Estado e sócia em uma quinta, além de abocanhar um complexo eólico em Palmares do Sul, no Litoral.

 

Em algumas usinas, é sócia da CEEE, estatal gaúcha que o Palácio Piratini tenta vender, o que torna os chineses candidatos naturais a uma possível aquisição. A lógica diz que o mesmo ocorre na área de distribuição. Dona da hidrelétrica com a maior potência instalada no mundo, Três Gargantas, no Rio Yang Tsé, a China Three Gorges (CTG) chegou ao Rio Grande do Sul em 2015, ao adquirir 49% de 11 parques eólicos da EDP Renováveis, de origem portuguesa. Um deles fica em Tramandaí, no Litoral.

 

No mês passado, a Shanghai Electric e o Clai Fund — fundo chinês para investimentos na América Latina — formalizaram que estarão à frente do projeto de construção de 1,9 mil quilômetros de linhas de transmissão. O conjunto de obras, de quase R$ 4 bilhões, vai ampliar em 20% o sistema gaúcho.

 

O diretor da Sala do Investidor do governo do Estado, Adriano Boff, diz que, até agora, apenas dois negócios passaram pela estrutura criada para facilitar a chegada de empresas ao Rio Grande do Sul. Além da Shanghai Electric, a aquisição de uma fabricante de produtos de nutrição para animais de estimação de Taquari.

 

— Em relação à Shanghai, colocamos no protocolo que eles devem dar preferência a fornecedores locais. Mas não é uma obrigação — admite Boff.

 

O país também marca presença no ramo fumageiro. A China Tabaco Internacional do Brasil (Ctib) e a Alliance One Brasil Exportadora de Tabacos (AOB) formaram em 2014, em Venâncio Aires, a China Brasil Tabacos Exportadora (CBT), joint venture com 51% do capital em mãos chinesas.

 

Mas há outros negócios à espreita. Credenciada a participar do leilão de energia marcado para este mês, a usina Ouro Negro, a carvão, projetada para ser erguida em Pedras Altas, no sul do Estado, deve ter controle chinês e também ser financiada por banco do país asiático. A usina, de 600 megawatts (MW), deve custar cerca de US$ 900 milhões. O projeto foi desenvolvido com a Shandong Electric Power Construction Corporation (SEPCO1), mas o sócio majoritário na empreitada seria outra empresa que o presidente da Ouro Negro Energia, Silvio Marques Dias Neto, diz ainda não poder revelar, por contrato de confidencialidade.

 

— São os chineses que têm vindo fazer negócio. Têm dinheiro e apetite — define o empreendedor, ex-diretor da CEEE.

 

A aposta de criação de um polo carboquímico no Estado também passa pelo interesse de empresas chinesas, devido à tecnologia que detêm. O complexo previsto para a região carbonífera do Estado tem expectativa de gerar investimento bilionário, caso saia do papel.

 

A logística não passa despercebida. Na metade do ano, surgiram rumores de que a China Communications Construction Company (CCCC) poderia apresentar proposta à Rumo (ex-ALL) para assumir a malha sul de ferrovias. Outros negócios não têm necessariamente capital chinês ou ficaram apenas no campo da especulação. A Foton Aumark, apesar de utilizar marca de montadora oriental em caminhões produzidos no Rio Grande do Sul, por enquanto conta apenas recursos do ex-ministro e ex-presidente do BNDES Luiz Carlos Mendonça de Barros. Em 2012, também chegou a ser anunciada outra fábrica de caminhões em Camaquã, mas o projeto nunca esteve perto de deslanchar.

 

Os negócios no RS

 

Distribuição de energia

– State Grid: Controla as concessionárias RGE e RGE Sul

 

Geração hídrica

– Usina Monte Claro (Rio das Antas) — Potência instalada: 130 MW

Participação: 65%

 

-Usina Castro Alves (Rio das Antas) — Potência instalada: 130 MW

Participação: 65%

 

-Usina 14 de Julho (Rio das Antas) — Potência instalada: 100 MW

Participação: 65%

 

-Usina Foz do Chapecó, Rio Uruguai (SC/RS) — Potência instalada: 855 MW

Participação: 51%

 

-Usina Barra Grande, Rio Pelotas  (SC/RS) — Potência instalada: 690 MW

Participação: 25,01%

 

Pequenas Centrais Hidrelétricas

-Andorinhas: 0,5 MW

-Guaporé: 0,7 MW

-Pirapó: 0,8 MW

-Saltinho: 0,8 MW

 

Parques Eólicos

-Atlântica 1,2,4 e 5, em Palmares do Sul — Potência instalada: 120 MW

-China Three Gorges (CTG) — 49% do Parque Eólico Cidreira 1, (Tramandaí) — Potência instalada: 70 MW

 

Transmissão

– Shanghai Electric — Vai construir 1,9 mil quilômetros de linhas de transmissão nas regiões Campanha, Fronteira Oeste, Central, Metropolitana, Zona Sul e Litoral, além de nove novas subestações e ampliação de 13 existentes. A empresa e o fundo chinês Clai ficarão com 69% da sociedade de propósito específico que será formada para tocar a obra _ a Eletrosul ficará com 31%.

 

Operações globais

 

Grandes grupos chineses também fizeram, nos últimos anos, série de aquisições de empresas globais com forte atuação no RS.

 

-O grupo ChemChina concluiu no ano passado a compra da fabricante de pneus de origem italiana Pirelli. A empresa tem unidade em Gravataí.

-Em julho, a ChemChina também concluiu a compra da suíça Syngenta, da área de sementes e defensivos. Uma aquisição de US$ 43 bilhões.

-Em 2011, a chinesa Midea fez fusão com americana Carrier. A empresa de equipamentos de climatização tem fábrica em Canoas.

 

Outros negócios à vista

 

-Possibilidade de associação de empresas chinesas no projeto de criação do polo carboquímico para a gaseificação do carvão. Ao menos no papel, projetos chegam a US$ 5 bilhões.

-Empresa chinesa deve se associar ao projeto da termelétrica a carvão Ouro Negro, em Pedras Altas (US$ 900 milhões), credenciado a leilão neste mês.