23 de março de 2017
Agua | ONU recomenda aumentar o uso de águas residuais

Por Martha San Juan França | De Valor

No Dia Mundial da Água, a ONU chama a atenção para o reaproveitamento das águas residuais tratadas como uma alternativa para enfrentar a escassez hídrica do planeta e o desperdício. A proposta, defendida no Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento de Recursos Hídricos, divulgado hoje, é utilizar esse recurso com segurança para evitar disputas pelas bacias e os altos custos de se buscar água cada vez mais longe. “As águas residuais são um recurso valioso em um mundo no qual a água é finita e a demanda é crescente”, afirma o presidente da UN Water, Guy Ryder.

Segundo o relatório, quando gerenciados para evitar riscos ambientais e para a saúde das pessoas, os efluentes podem ser transformados de um fardo em ativo. Graças aos avanços em técnicas de tratamento, nutrientes, como fósforo e nitratos podem ser recuperados a partir de esgotos e lodos e transformados em fertilizantes para solos pobres. Substâncias orgânicas são utilizadas para a produção de biogás, como já ocorre no Japão.

Na maioria dos países, o reúso da água para fins não potáveis já é uma realidade em grandes indústrias e deve aumentar, segundo estimativas da ONU, em 50% até 2020. Pelo menos 50 países, entre eles o México e a China, também utilizam esse recursos para irrigação agrícola, o que representa cerca de 10% de todas as terras irrigadas. No Brasil, são realizados estudos experimentais pela Sabesp em parceria com a USP, visando a utilização de reúso na agricultura, mas a falta de legislação específica impede que a prática seja aproveitada em maior escala.

Águas residuais tratadas também podem servir para aumentar o abastecimento de água potável. “Esta é uma solução moderna, economicamente viável e que conta com tecnologia comprovadamente eficaz”, afirma o professor Ivanildo Hespanhol, diretor do Centro Internacional de Referência em Reúso da Água (Cirra), vinculado à Escola Politécnica da USP. “Essa prática já existe em diversos países, entre eles Estados Unidos, África do Sul, Namíbia e Cingapura. Nunca foram detectados problemas de saúde pública associados ao reúso nesses países.”

“A prática de usar água de esgoto para fins de consumo pode causar resistência, mas é preciso lembrar que esse é um processo que requer as mais avançadas técnicas de purificação”, afirma Massimiliano Lombardo, oficial do meio ambiente da Unesco no Brasil. Campanhas de conscientização podem ajudar na aceitação do público, remetendo a exemplos bem-sucedidos, como na região de Orange County, na Califórnia, onde a água tratada é misturada com a das bacias subterrâneas e depois passa para o sistema de abastecimento comum, um sistema que já foi apelidado de “da privada à torneira”.

Até mesmo a água de reúso utilizada para fins industriais passa por um processo tão ou mais rigoroso do que o da água normalmente utilizada para o abastecimento. “Muitas vezes a indústria demanda uma água com características específicas, que garante a preservação e funcionamento dos equipamentos necessários para seus processos produtivos”, afirma Fernando Pereira, gerente comercial da General Water, fornecedora de estações de tratamento para empresas. Em contrapartida, a água dos reservatórios pode estar contaminada com esgotos irregulares e lixo, e muito menos limpa.

Segundo o relatório, nos países de baixa renda, só 8% das águas residuais domésticas e industriais, em média, recebem tratamento. Nos países de renda mais alta, essa taxa chega a 70%. No caso brasileiro, de acordo com o Instituto Trata Brasil, apenas 48,6% da população têm acesso à coleta de esgoto, sendo que 40% do efluente coletado passam por algum tipo de tratamento antes de serem descartados no meio ambiente. Como resultado da falta de tratamento, segundo a ONU, águas contaminadas por bactérias, nitratos, fosfatos e solventes são despejadas em rios e lagos que deságuam nos oceanos.

Os sistemas convencionais de tratamento também precisam ser aprimorados. Segundo Hespanhol, hoje a água recebe uma carga enorme de poluentes como hormônios, fármacos, cosméticos e nanopartículas cujo impacto na saúde e no meio ambiente ainda precisa ser totalmente compreendido. O relatório da UN Water lembra que são necessárias pesquisas para aprimorar a compreensão da dinâmica dos poluentes e aperfeiçoar os métodos de sua remoção.